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COZINHA E TRADIÇÃO SE UNEM EM PROPOSTA INOVADORA

Criadora do pequeno Ajeum da Diáspora, chef baiana sacudiu a gastronomia de Salvador com um restaurante que funciona na sua própria casa

 

Era dia de Santa Bárbara quando a reportagem entrou em contato com Angélica Moreira pela primeira vez, perto da hora do almoço. A conversa teve de ficar para depois: a chef baiana estava às voltas com uma encomenda de caruru em honra à santa, ritual praticado em Salvador no dia 4 de dezembro – um dos exemplos da mistura entre elementos de matriz africana e catolicismo que unem cozinha e tradição. “É uma comida afro-sincrética”, definiu, com a mesma facilidade de quem corta uma cebola. 

A união entre culinária, pesquisa e resgate da herança africana está na base do Ajeum da Diáspora, restaurante criado por Angélica em 2013 na capital baiana. O início foi por acaso: a cozinheira conta que recebeu algumas pessoas em casa para uma “ressaca de carnaval”. Cobrou um valor de cada convidado pelo almoço. Era para ser só isso, mas algumas pessoas voltaram no outro dia perguntando se o serviço estava funcionando.

 

Restaurante serve especialidades nordestinas realçadas por sabores africanos

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UM MODELO BASEADO EM COZINHA E TRADIÇÃO

A chef topou fazer um segundo prato e a proposta pegou. O modelo não mudou tanto assim depois que virou negócio: ela continuou atendendo em sua casa – um imóvel antigo em uma ruazinha estreita do bairro do Tororó. Cabem cerca de 20 pessoas, que são servidas com uma única gamela do prato da semana.

O cardápio, que inclui entradinhas e batidas, é divulgado nas redes sociais na quinta-feira, quando começam as reservas. A cozinheira mesmo é quem vai às compras, sempre na Feira de São Joaquim e no Assaí Cidade Baixa. “Se vou a outro mercado grande, me perco”, brinca. O serviço vai à mesa no domingo, da hora do almoço até o fim da tarde, quando a cozinheira fecha as portas e as pessoas se despedem, tal como num encontro de amigos.  

O nome do restaurante descreve a experiência: a palavra “ajeum”, no candomblé, tem o significado de reunião em torno da comida; e a diáspora africana é o universo cultural no qual a chef colhe referências para sua cozinha – a culinária de Angola, Benim, Moçambique, Nigéria e os destinos forçados de povos africanos escravizados, do Brasil aos Estados Unidos, passando por Peru, Jamaica e Cuba. “Tem diáspora no mundo todo”, explicou. 

Entre os pratos que mais fazem sucesso estão o arroz jollof, presente em vários países da África Ocidental; o arroz jambalaya, da cozinha crioula de Nova Orleans (EUA); e o bombotie – conforme conta Moreira, também o prato preferido de Nelson Mandela. Eventualmente, há velhos conhecidos, como a feijoada – mas a culinária brasileira, sobretudo a baiana, marca presença com as receitas regionais menos famosas ou em risco de esquecimento.

 

SUCESSO NAS REDES E NA MÍDIA

Divididos em “edições”, os almoços não demoraram a chamar a atenção de entusiastas da gastronomia e da cultura africana. O trabalho de divulgação comandado pelas filhas – a jornalista Daza Moreira (34) e a cineasta Safira (29) – impulsionou o nome do restaurante nas redes sociais e na imprensa. 

O burburinho foi tão efetivo que, já no segundo ano, chegou aos ouvidos do chef, escritor e apresentador norte-americano Anthony Bourdain (1956–2018), que gravou ali um episódio de sua prestigiada série de viagem e gastronomia “Parts Unknown" na rede CNN. “Para nós, que estávamos começando, foi um êxtase. Ali o restaurante começou a ganhar corpo, respeito, e deu uma sacudidela na gastronomia local”, relembra Angélica. 

Outros nomes importantes passariam por lá, como a ativista negra e filósofa norte-americana Angela Davis. O Ajeum da Diáspora entrou no roteiro de agências, guias e turistas internacionais. Angélica Moreira também começou a dar oficinas de etnogastronomia afro-brasileira e a participar de eventos de cozinha, empreendedorismo e feminismo negro fora de Salvador. 

O projeto on-line Saboreando Histórias, nascido durante a pandemia, dá aulas de gastronomia inspiradas em livros de ficção

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SABOREANDO HISTÓRIAS

Foi mais ou menos assim até que as edições de almoço tiveram de parar por causa da pandemia de coronavírus em 2020. Sendo um empreendimento de resistência, como Moreira faz questão de destacar, ela e as filhas acharam um jeito de continuar os trabalhos. 

As ideias não pararam no delivery: a chef deu um jeito de unir, além de cozinha e tradição, a gastronomia à literatura, outra paixão, por meio de um projeto on-line em que ensina receitas inspiradas por livros publicados por escritoras e escritores negros. 

“Sempre gostei de autoras e autores negros. E, quando você bota a lupa, sempre acha um cheiro, um sabor, um tempero. Raramente não tem comida”, explica. “Se não tem, uso a região onde a história é ambientada ou o local onde a autora/ o autor viveu ou vive.” O prato de estreia foi uma galinha com ora-pro-nóbis (planta comestível bastante rica em proteínas) e angu inspirado pela obra “Diário de Bitita”, da pioneira autora mineira Carolina Maria de Jesus (1914–1977). 

Em junho, a referência foi o livro “Na minha pele”, do ator Lázaro Ramos, que Angélica Moreira apresentou com uma moqueca de peixe com feijão de leite. O ator acompanhou a aula e, pouco depois, foi maravilhado ao Instagram para contar que teve o dia “iluminado” pelo projeto. “Acabei de acompanhar um dos acontecimentos mais interessantes dessa quarentena”, exaltou.

O projeto “Saboreando Histórias” ainda teve edições baseadas em livros de autores como Toni Morrison, Angela Davis e Chimamanda Ngozi Adichie. A ideia rendeu uma participação do Ajeum da Diáspora no “Programa IMS Convida”, do Instituto Moreira Salles, com o mesmo formato. Na aula, que está disponível no site ims.com.br/convida, a chef fez um arroz de hauçá, pinçado das páginas de “Um defeito de cor”, da escritora Ana Maria Gonçalves.

PLANOS PARA O FUTURO

Mais de sete anos depois da primeira edição, Angélica Moreira finalmente pensa em expandir o Ajeum da Diáspora em 2021 – mas nem tanto. Se, em tempos normais, ela vinha recebendo até 20 pessoas por edição, a ideia é reabrir o restaurante para, no máximo, 40. “Tem que continuar essa energia, essa informalidade. Não pode perder essa coisa de casa”, explica a chef. “Tem gente que chega a chorar quando vem, porque vê a cristaleira, o espelho e a máquina de costura e se sente na casa da avó.” 

Ela também já se diz satisfeita com a proporção que o negócio tomou – ressaltando que foi algo criado sem maiores pretensões por uma mulher negra, já com seus 50 e poucos anos. Antes do restaurante, a chef teve trabalhos tão diversos quanto venda de joias e pesquisa de mercado. Também após os 50 – depois que suas filhas já tinham passado em universidades federais – ela se formou em pedagogia na Universidade do Estado da Bahia (Uneb). “Quis quebrar o ciclo de educação precária das mulheres negras”, lembra. 

O Ajeum da Diáspora, diz a chef, “paga todas as contas” e já a levou a lugares que ela nem imaginava conhecer, como o México. “Já considero um negócio de muito sucesso”, diz. “Não é que eu não queira crescer. Mas tenho 61 anos. Quero fazer coisas que me deem certa tranquilidade e que me permitam continuar a ter os prazeres que tenho – abraçar os clientes, fazer eu mesma as compras, conhecer o feirante e o mercado a que vou. São coisas minhas.”

Cozinha e tradição: sala de casa se confunde com o salão do restaurante e esse clima de "casa da avó", segundo a chef, emociona os clientes

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